domingo, 13 de janeiro de 2013

Eu preciso estar mais com ela

Vivo 220 km longe da casa que nasci e cresci e estou totalmente distanciada dos meus pais e amigos. Não fui para minha cidade durante cinco meses e acabei me afastando emocionalmente de todos de lá. Eu não estou dizendo isso com orgulho.  Agora que tudo passou, eu sei o quanto a falta deles na minha vida gera intranqüilidade, um mal com nome: saudades. Eu digo mal porque eu demorei a perceber que esse sentimento não vem de uma boa forma. Eu enrolei meses pensando que me atrapalharia voltar para uma visita, algo fútil no meio de tantas coisas a se fazer. E quando a gente volta se depara com as coisas fora de eixo. Aquela sensação que minha obrigação era estar ali e faltava a minha mão para que as coisas saíssem certo.  Passei duas semanas tentando mostrar para alguns que apesar do longo tempo, eu estava ali. Para outros, se eles me esqueceram e seguiram em frente, eu também o fiz.


Acontece que só tem uma pessoa nesse momento a quem eu queria ter dado mais atenção: a ela, a minha mãe. Não quero falar que sou uma filha pródiga, não é tanto. Tenho a consciência de que tampouco sou a filha mais carinhosa do mundo. Estou longe de ser uma das pessoas mais afetuosas que se conhece. Fui viajar e trouxe-a junto comigo, para passear aqui na minha outra cidade.  A ideia é que ela descansasse, mas acho que fui movida por razões egoístas: era para por minha casa em ordem. Sabe a ideia de mãe amorosa do senso-comum? Então a minha é dessas ao cubo, a mãe judia em pessoa. Quer cuidar e quer me cuidar que chega até a sufocar.

Curioso é que ela foi embora há uma hora e estou sentindo imensa falta dela. Que sensação absurda. Durante a semana ficamos somente nós duas e em muitos desses momentos nossos eu estava em outro lugar, enquanto ela ali quase implorando para que eu conversasse com ela. Eu não sou mais uma adolescente, eu sei o quanto é mal educado colocar um fone de ouvido na companhia da outra pessoa. Por que eu fiz isso? Eu não sei. Tenho mil coisas na cabeça, sou inquieta e às vezes quero ficar só no meio dos meus pensamentos.

Por incrível que pareça, eu tenho muito orgulho da minha mãe. Uma vez eu li que mulheres como eu e ela dificilmente entram na faculdade, pois são desestimuladas desde sempre. Ela conseguiu de forma quieta e paulatina, voltando a estudar depois dos trinta. Surpreendeu a todos quando acreditavam que seria empregada doméstica e solteirona para sempre. Fez faculdade quando eu e meu irmão éramos pequenos. A minha vida só mudou de verdade quando minha mãe ficou doente e recebeu um seguro. Eu já tinha praticamente desistido de estudar quando ela me falou pra prestar o vestibular e ir embora, ela arcava com as despesas. E assim aconteceu, mas eu não fui o melhor dos exemplos.

Lembro quando eu fiquei doente, minha mãe estava na minha casa e minha amiga veio me visitar. Eu não sei como chegamos à discussão, mas minha mãe realmente estava preocupada comigo, em como eu estava levando a vida. Eu estourei e falei tudo: não era boa aluna. Já tentei, mas não conseguia; desatenta, não conseguia parar quieta sentada e bonitinha; tinha tomado DP mesmo porque não conseguia. Eu era desorganizada mesmo, e infelizmente, eu jamais ia conseguir por minha casa nos eixos e o que é pior, o Cara (?) que eu gostava não me queria(??). Falei tudo, pra expor pra minha mãe que eu era um lixo mesmo, e a real era que eu estava mesmo. Acredito que foi o único momento de sanidade que tive naquela época, eu me enxerguei, mas não tive nenhum tato para expor aquilo pra minha mãe. Nessas horas eu agradeço ao trabalho em conjunto dos meus pais que enxergaram aqueles problemas em mim e não desistiram, e hoje eu estou mais dona de mim para enfrentar tudo.

Falo também que minha mãe não é um doce de pessoa, aquela “Dona Mara” que alguns amigos meus daqui a chamam muitas vezes é bem momentâneo. Ela é uma pessoa cheia de complexos, compulsões e com diversos machucados emocionais não tratados além de feridas imaginárias. Cada vez que eu a vejo explodir, se atrapalhar ou divagar, também estou me enxergando. Esta é a minha natureza, e este meu lado que luto para mudar tanto. Ela quer atenção e muitas vezes ela exige. Minha mão para na testa e fico pensando se é assim agora imagina como será velhinha? Mas a gente se esquece que já está acontecendo. Os problemas já surgiram e estão aí, mais do que na hora de serem resolvidos.

Eu não quero ser assim, amar alguém só quando ela vai embora. Eu queria saber valorizar mais, cuidar mais, curtir mais. Eu costumo ser assim com muita gente, alguns que nem mereceriam tanto afeto. Porque não com a pessoa que me ama tanto. Mas estou vivendo na época do pouco tempo, inclusive para mim. Isso que me magoa, não oferecer a atenção para aquela que merece, independente de ter me parido.Falam que mães sempre perdoam os filhos, dos pequenos enganos aos mínimos erros. Nem vou me questionar se a minha faz isso?. Mas isso não me consola tanto porque teoricamente eu não fiz nada de errado. Eu precisava lutar pela causa maior,  que sou eu cuidar da minha vida fazer o meu caminho. Nem vou dizer que  estou com um medo tremendo de perdê-la, pois está na cara. Eu só não queria ter essa mesma sensação quando não houver mais a chance.

P.S.: Depois que terminei de escrever lembrei do filme "O Clube da Felicidade e da Sorte".