quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A minha busca pelo meu vestido Armani

Nesses dias fui acompanhar uma amiga nas compras. Ela queria tentar estacionar o carro a todo custo, nas ruas cheias da véspera de natal e não havia vagas. Quando conseguiu, foi correndo feliz da vida, procurando a blusa que tinha visto no dia anterior. Ela queria aquela em especial e parecia estar enfeitiçada, como se fosse seu santo graal. Apesar de ter gostado da blusa na primeira vez que viu, ficou com preguiça de comprar. Ela ficou decepcionada quando a vendedora falou que tinha vendido, fazendo expressão de dor acompanhada com uma cara de choro, ficando ali parada com o cartão de crédito na mão como se pagasse o preço que fosse para poder carregar aquele pedaço de pano. Não dava mais tempo. Parece bobo a gente ficar com dó de uma marmanja, mas eu fiquei mexida com a cena, um dó inexplicável.

Tive um momento de epifania e me lembrei do filme “Divã” que assisti há certo tempo. Tinha uma cena incrível em que a divina Lilia Cabral estava na mesa com o ex-marido dela. A personagem vira pra ele e o compara com um vestido Giorgio Armani. Disse que ele era como aquele Armani maravilhoso, ela o considerava especial, mas que um dia uma amiga o pediu emprestado e ela notou que caia melhor na outra. Resolveu dar o vestido a amiga, apesar desta não tratá-lo com tanta consideração como ela.

Eu tive um novembro muito estranho. Eu não vivi nenhuma das situações acima, mas parece que eu entendi. Encaixei as situações como se fossem minhas próprias e admito o quanto é estranho usar o sentimento alheio e interpretá-lo de uma forma para explicar o seu. Vou contar o que me ocorreu no último mês, utilizando os elementos mesmos elementos, criando uma fábula marota.

Eu passei de frente pra uma loja que normalmente eu não costumo passar em frente. Vi um vestido Armani exposto na vitrine e gostei dele na primeira batida de olho. Porém nem cheguei tão perto. Eu não vi o preço, não vi o tamanho, não vi os detalhes.

Quando cheguei a casa, do nada, me pego pensando em como eu ficaria naquele vestido. Que seria maravilhoso eu usá-lo em tal situação, ele deixaria meu corpo assim e assado. Mente fantasiosa como a minha, em um segundo, passei a vê-lo como se realmente me pertencesse. Como se tivesse o cabide próprio, o lugar certo no meu armário.

Na minha cabeça eu vesti aquele vestido. Ele foi desenhado pra mim, como se o estilista tivesse pensado em atender unicamente aos meus caprichos. Mas nós sabemos muito bem que não é assim que a indústria funciona. Porém, era assim que eu me senti, como se alguém tivesse posto em uma única fórmula material tudo que meu inconsciente pediu, conforme minhas medidas. Com cada pense adequada ao meu gosto, cada bainha muito bem costurada, com o caimento certo. A costureira caprichou em tudo só para adequar nas minhas curvas. Como eu poderia saber disso? Não sei. Às vezes nossa cabeça entra em uma confusão, passamos a chamar de Instinto aquilo que nada mais é o próprio Ego, esquecendo todas as normas que aprendemos sobre o mundo.

Mas lá vou eu, desesperada assim como minha amiga, tentar achar uma vaga, não se importando onde irá deixar o carro. Correr desesperadamente atrás do vestido, sabendo que nas noites de dezembro as lojas estão cheias. Trata-se da ânsia e do desespero, confundidas com a esperança de aquele Armani sonhado estar lá, esperando que eu o leve para casa. Não importa o preço, porque é um Giorgio Armani, vale o que for o suor alheio e quem sabe o meu para pagá-lo. O que importa é a posse.

Ao escutar que ele acabou de ser vendido torna-se uma verdadeira decepção. Eu consigo imaginar que devia ser aquela garota linda de morrer que acabou de sair com a sacola, feliz da vida se considerando a maior sortuda do mundo por ter comprado um Armani. Eu me sinto a maior tola do planeta, considerando também ser a única merecedora. As dúvidas e repreensões pingam na mente: Como não agi antes? Como deixei passar essa? Como eu não reparei que era o vestido dos sonhos?

A vontade é de correr atrás, de negociar, de bater boca. Quem sabe roubar o vestido e levá-lo comigo. Com certeza servirá em mim, muito melhor do que serviria pra ela. Eu mereço ter um Giorgio Armani, que saco. O estilista, a costureira, o modelo, a vitrine. Tudo estava conspirado para ser meu. Mas será que eu tenho que ir atrás? Será que isso vale a pena?

Eu posso correr atrás o quanto eu quiser e talvez até tomá-lo pra mim. Mas todo bom senso do mundo indica que eu estou errada, que o crime não compensa. Cada vez que eu o vestisse, me sentiria mal, pensando na forma que eu o conquistei que foi errado. Chegaria o dia que eu desistisse de usá-lo. Olhando atentamente eu nem sei se ele serve em mim. E o preço? Será que compensaria a divida? Quem sabe vestindo não era exatamente o que eu queria. Talvez nem seja um verdadeiro Armani, apesar das situações indicarem que o seja.

Eu não vi o vestido no meu corpo, eu vi a imaginação que criei e a vesti apenas na mente. Existem diversas possibilidades como nem ser o vestido tão bonito ou nem fosse exatamente o que eu queria para mim. Poderia ser mais uma roupa no meu armário, que está ali, mas não tem ocasião adequada para usá-lo.
Assim como a Mercedes, eu estou comparando um homem especifico como um vestido Armani, mas na verdade vivi a experiência da minha amiga. Juntei expectativas e dei de cara com a negativa: ele não está mais disponível. Eu não sei dizer se eu e ele nos daríamos bem, mas eu queria pelo menos ter experiência. Se tivesse chance, voltaria no instante que reparei nele e iria atrás, quando ele ainda estava lá. Sentir que a sensação de querer não foi em vão.

A gente pode rir que a vida é incrivelmente irônica. Com sorte de um vencedor de loteria, talvez num bazar da vida eu o reencontre, o que será difícil. Se eu fosse aquela menina, não me desfazia dele por nada. Pelo menos se ele for o que realmente eu penso, com qualidades e defeitos. Eu jamais seria capaz.

Posso acreditar que relações se desfaçam assim como a moda muda. Às vezes minha moda particular mude e o que eu desejava euforicamente ontem já não terá a mesma importância amanhã. Mesmo assim é horrível você acumular tanta expectativa, e cair na real que a única certeza das coisas é que você não terá total controle sobre nada. Não dá para acreditar era apenas mais um vestido que eu quis.

Eu sou aquela idealizou, criou uma expectativa talvez até exagerada por algo que não vai se realizar. As pessoas ao redor podem dizer o que for, mas para mim parece que eu me vi querendo um vestido muito especial, um Armani, e não quis comprar na hora. Outra mulher chegou, não perdeu a oportunidade, ela usou o vestido. Meu lado realista prefere pensar que ele fica muito mais bonito nela do que ficaria em mim.
Quem nunca passou por isso que jogue a primeira pedra. Essas coisas podem ocorrer até mesmo aquelas que chegaram a experimentar os vestidos e não lhe serviram, ou as que conseguiram comprar, mas não lhe caíram bem. Também existem aquelas que têm vestidos que já lhe couberam muito bem um dia, mas hoje eles não servem mais. Chega uma hora de abrir mão, pois devem ser lembrados como algo que foi bonito no passado e ser passados pra frente.

Há muitos vestidos por ai para diferentes estilos e gostos. Os que podem cair bem no corpo, os que não podem. Quem sabe se eu procurar o que eu quero em outra loja, eu vou encontrar um vestido semelhante ou até mesmo mais adequado a mim. Mas repetindo a frase do filme, se a “amiga” não cuidar direitinho desse vestido em especial, o Giorgio Armani do qual eu abri mão de correr, eu juro que pego ele pra mim.

“Iaiá, se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade. Pois é, em ti, eu me atirei. E fui te encontrar pra ver que eu me enganei...”

“Amores platônicos são engraçados, ainda mais de se contar...”

“Porque se eu quiser e você não vier, eu invento um amor”.

Nenhum comentário: